No kartismo, o olhar costuma estar direcionado ao que acontece na pista: velocidade, ultrapassagens, traçado, tempo de volta e resultado. Entretanto, antes mesmo de o piloto colocar o capacete e entrar na pista, existe um componente fundamental que pode influenciar diretamente seu desempenho: a mente. É nela que acontecem processos como atenção, concentração, tomada de decisão, controle emocional, confiança e manejo da pressão. Por isso, compreender o piloto para além de sua performance na pista é essencial para entender o esporte de forma mais ampla.
O kart é uma modalidade que exige respostas rápidas, concentração elevada, capacidade de adaptação e tomada de decisão em frações de segundo. O piloto precisa lidar com informações simultâneas, interpretar o comportamento dos adversários, administrar os riscos e, ao mesmo tempo, manter o controle emocional. Nesse contexto, o trabalho do Psicólogo do Esporte pode contribuir de maneira significativa para o desenvolvimento do atleta.
A Psicologia do Esporte não tem como objetivo transformar o piloto em alguém que nunca sente medo, ansiedade, frustração ou insegurança. Pelo contrário. Essas emoções fazem parte do esporte. O trabalho psicológico consiste em ajudar o atleta a reconhecer, compreender e administrar essas respostas para que elas não prejudiquem sua tomada de decisão e sua performance.
Assim como o atleta treina o condicionamento físico e aperfeiçoa aspectos técnicos do kart, as habilidades psicológicas também podem ser desenvolvidas.
No acompanhamento psicológico, o profissional busca compreender quem é aquele piloto, como ele reage diante de diferentes situações e quais fatores influenciam seu desempenho. Dois atletas podem estar diante da mesma situação competitiva e apresentar respostas completamente diferentes. Enquanto um pode interpretar a pressão como um estímulo para competir melhor, outro pode percebê-la como uma ameaça.
Por isso, o trabalho não deve partir de fórmulas prontas. É necessário conhecer a história do atleta, suas características, seus objetivos, suas dificuldades e o ambiente no qual ele está inserido; e a partir dessa compreensão, podem ser desenvolvidas estratégias relacionadas à concentração, autoconfiança, controle da ativação, manejo da ansiedade, estabelecimento de metas, visualização, rotinas pré-competitivas e recuperação emocional após erros ou resultados abaixo do esperado.
No kartismo, uma questão merece atenção especial: a tomada de decisão. Durante uma corrida, o piloto precisa decidir constantemente: ultrapassar ou esperar? Defender a posição ou preservar os pneus? Arriscar uma manobra ou escolher uma alternativa mais segura? Como reagir depois de cometer um erro? Como interpretar uma mudança repentina no comportamento de outro piloto?
Essas decisões não acontecem em um ambiente neutro. O atleta está submetido à velocidade, à competição, ao barulho, à pressão por resultados e as próprias emoções. Quando a ativação emocional aumenta excessivamente, a capacidade de avaliar uma situação pode ser prejudicada. Da mesma forma, quando o piloto perde o nível adequado de atenção ou confiança, sua resposta também pode ser afetada.
O Psicólogo do Esporte pode trabalhar essas situações por meio de exercícios e simulações que aproximem o treinamento psicológico das demandas reais da pista. O objetivo é ajudar o atleta a desenvolver maior consciência sobre seus pensamentos, emoções e comportamentos, favorecendo respostas mais funcionais diante das situações competitivas.
A ansiedade antes de uma corrida também é uma experiência comum para os atletas. O coração acelera, a respiração muda, surge uma sensação de expectativa e o pensamento pode ficar mais acelerado. O problema não está simplesmente em sentir ansiedade. A questão é compreender como essa resposta está afetando o atleta e sua performance.
Um determinado nível de ativação pode contribuir para que o piloto esteja atento e preparado. Porém, quando a ansiedade se torna excessiva, pode aparecer acompanhada de pensamentos negativos, dificuldade de concentração, tensão muscular e preocupação exagerada com o resultado. Nessa situação, o psicólogo pode ensinar o atleta a identificar seus sinais de ativação e utilizar estratégias adequadas para regulá-los. Técnicas respiratórias, exercícios de atenção, rotinas pré-corrida e estratégias cognitivas podem fazer parte desse processo.
Outro aspecto relevante refere-se ao desenvolvimento da autoconfiança.No esporte, confiança não deve ser confundida com a certeza de vitória. Um piloto confiante não é aquele que acredita que tudo dará certo, mas aquele que reconhece suas capacidades e consegue confiar em seus recursos mesmo diante de situações difíceis.
O trabalho psicológico pode ajudar o atleta a construir uma percepção mais realista de suas competências. Isso envolve analisar experiências anteriores, reconhecer progressos, identificar pontos que precisam ser aprimorados e estabelecer objetivos possíveis. A confiança também precisa sobreviver aos erros.
No kartismo, uma classificação ruim, uma ultrapassagem malsucedida ou um abandono podem gerar frustração. Quando o piloto interpreta um erro como prova de incapacidade, pode entrar em um ciclo de pensamentos negativos que interfere nas próximas decisões. Aprender a transformar o erro em informação é uma habilidade importante para a carreira esportiva.
O trabalho do Psicólogo do Esporte não precisa estar restrito ao atleta. No kartismo, especialmente nas categorias de formação, pais, responsáveis, preparadores, mecânicos, engenheiros, treinadores e outros profissionais fazem parte do ambiente esportivo. A maneira como essas pessoas se comunicam com o piloto pode favorecer ou dificultar seu desenvolvimento.
A cobrança excessiva, comparações constantes, críticas após cada resultado e expectativas incompatíveis com o momento de desenvolvimento do atleta podem aumentar a pressão psicológica. Por outro lado, um ambiente baseado em comunicação clara, respeito, apoio e definição adequada de expectativas pode favorecer a aprendizagem e a construção da autonomia.
Por isso, em determinados casos, o Psicólogo do Esporte atua também na orientação daqueles que estão ao redor do piloto. A pergunta deixa de ser apenas “como fazer o piloto melhorar?” e passa a incluir outra questão fundamental: “que ambiente estamos construindo para que esse atleta possa se desenvolver?”
Mas como tudo isso funciona? Quando os pilotos devem começar cuidar da saúde mental?
A preparação psicológica não começa quando o piloto entra no kart. Assim como existe uma preparação técnica e física, o ideal é que exista também uma rotina de cuidados mentais para os momentos que antecedem a competição. Essa rotina pode incluir organização dos pensamentos, respiração, atenção às informações relevantes, visualização de situações da corrida e estabelecimento de objetivos relacionados ao processo.
Em vez de entrar na pista pensando exclusivamente em “preciso vencer”, o atleta pode trabalhar objetivos mais controláveis: manter a concentração, executar o que foi treinado, tomar decisões conscientes e responder adequadamente às situações que surgirem. Isso não significa diminuir a ambição competitiva. Significa direcionar a atenção para aquilo que está sob controle do atleta.
O acompanhamento psicológico também é importante após a competição. Uma corrida pode terminar com vitória, derrota, abandono, acidente, erro estratégico ou uma performance acima das expectativas. Cada experiência pode produzir diferentes respostas emocionais.
O momento pós-competição pode ser utilizado para reflexão: o que funcionou? O que não funcionou? Como o piloto reagiu à pressão? Quais decisões foram tomadas? Como ele lidou com os erros? O que pode ser aprendido para a próxima competição? Essa análise deve evitar tanto a autocrítica destrutiva quanto a busca por justificativas. O objetivo é transformar a experiência esportiva em aprendizado.
O trabalho do Psicólogo do Esporte com atletas de kart não consiste em oferecer uma “receita” para vencer corridas; o processo é mais amplo. Trata-se de desenvolver recursos psicológicos que permitam ao piloto lidar melhor com as exigências da modalidade, compreender suas emoções, aprimorar sua capacidade de concentração, tomar decisões sob pressão, desenvolver confiança e aprender com suas experiências.
No kartismo, onde pequenas diferenças podem definir grandes resultados, preparar a mente também faz parte da preparação do piloto. A pista exige velocidade. A competição exige estratégia. E a alta performance exige, além de tudo isso, a capacidade de permanecer mentalmente presente quando cada segundo importa.
Fabiana Nascimento
Pedagoga.
Psicóloga Clínica e Esportiva.
Pós-graduada em Psicologia Esportiva pela Universidade de Minas, CBF e CRP.
Pós-graduação em TCC para alto rendimento esportivo, neurociência e psicopedagogia.
Membro da atual diretoria (2026–2027) da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte
Coordenadora do GT de Psicologia do Esporte no Automobilismo da ABRAPESP